Zuñiga, negro e latino-americano

Por Sylvia Colombo

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Não vou entrar no mérito da seriedade da falta que Camilo Zuñiga fez em Neymar.  Estamos todos tristes com a ausência do ídolo nesta fase final da Copa do Mundo. Mas é fato que a FIFA estudou as imagens e disse não ter havido deslealdade. Além disso, Zuñiga pediu desculpas. Repito, Zuñiga pediu desculpas.

Cegos de ódio e revelando intolerância, internautas brasileiros de diferentes origens e vertentes –e me espantei com a quantidade deles que está no meu círculo de amigos nas redes sociais– saíram a incitar a violência e exibir com pompa seu preconceito.

Estava em Bogotá nos últimos dias, e acompanhei a reação da mídia e da sociedade colombianas, espantadas e surpreendidas com a agressividade dos brasileiros na rede contra Zuñiga. As mensagens de ódio incluíam, nada menos, convocações para um estupro coletivo da filhinha do jogador, também o de sua mulher e, para coroar, um linchamento real de toda a família _para quem duvida que incitações a linchamentos virtuais se transformam em linchamentos reais, lembrem-se da mulher assassinada no Guarujá.

Até o endereço do jogador, em Nápoles, foi descoberto por um desses boçais e publicado na rede, sugerindo uma ação coletiva para assassina-lo. Isso mesmo, para assassina-lo.

“Ódio aos colombianos”, “só servem para produzir cocaína” e “negro filho da puta” foram alguns dos impropérios que li nas redes nos últimos dias. Morro de vergonha de dizer que muitos foram ditos por colegas de profissão ou conhecidos, pessoas ditas “esclarecidas” e com seguidores.

Será que se a mesma falta fosse cometida por um ídolo europeu qualquer a reação seria a mesma? Ou será que se destapou uma panela que está sempre fervendo, a do desdém ignorante brasileiro com relação ao resto da América Latina? Arrasta-se por estas terras que se consideram abençoadas por um “Deus brasileiro” um preconceito que vem da elite imperial do século 19, aquela que considerava o Brasil um país branco, uma parte da Europa e que via do outro lado das nossas fronteiras uma terra de anarquia e barbárie. Mesmo sentimento que identifica a América Latina como sinônimo de algo folclórico e primitivo, mas que serve de destino turístico para explorar prostitutas nativas carnudas ou para comprar artesanato exótico.

Parece que um montão de gente está vendo na Copa do Mundo uma desculpa para soltar sua verdadeira essência brucutu, machista, racista e, nesse caso, latinofóbica. Obviamente, reclamam da “patrulha do politicamente correto”.

“Ah, quer dizer que não posso xingar a presidente (mulher) de vaca? Ou publicar uma montagem que mostre o Fred como um aleijado? Ou dizer que argentino é fedido? Ou chamar um negro de ‘filho da puta’? Ou colombiano de criminoso? No futebol sempre pôde, então vou me soltar um pouquinho…”, pensam eles. Natural, não? Imagino que seja mesmo difícil se fingirem de civilizados todos os dias do ano: respeitar mulheres, não soltar cantadas intimidatórias, não xingar negros, gays, asiáticos e latino-americanos. É pedir demais, parece. Segundo sua lógica, o futebol, afinal, sempre foi cheio desse tipo de ofensa, porque não aproveitar um pouquinho, se soltar, relaxar e ser bem escroto?

Só que não, não é “tudo bem” agir assim, nem que seja “só de brincadeirinha, só porque é futebol”. Os comportamentos violentos nascem desse tipo de raciocínio e modo de ver o mundo. As injustiças sociais e raciais no Brasil se perpetuam por conta disso. Assim como o modo como estereotipamos, ridicularizamos e insultamos nossos vizinhos.