Rolê por Bogotá

Por Sylvia Colombo

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As grandes cidades latino-americanas estão explodindo, de quantidade de gente, de carros, de linhas de ônibus e projetos urbanísticos que, mesmo bem intencionados, não dão conta do fluxo. O resultado são metrópoles atravancadas, onde encontrar alguém significa transpor obstáculos e gastar muito tempo. O que dirá conhecê-las e ouvir suas histórias. Com 8 milhões de habitantes e principal cidade de um país que cresce a olhos vistos mas carrega grandes feridas, Bogotá não é diferente. O que se esconde por trás dos milhares de rostos com os quais uma pessoa cruza por suas grandes avenidas e ruas que sobem os Andes em zigue-zague da capital colombiana? Foi a pergunta que o diretor catalão Marc Caellas fez para montar seu mais novo espetáculo de teatro site-specific, “Cuento Mi Vida”, em cartaz por esses dias aqui.

Conheci Caellas há alguns anos, em São Paulo, quando levou um projeto de adaptar um texto do chileno Roberto Bolaño em uma performance na Balada Literária. Depois, vi um par de espetáculos seus em Buenos Aires, adaptando um texto do norte-americano David Foster Wallace à biblioteca conde Jorge Luis Borges trabalhava, e depois à livraria Clasica y Moderna, no centro da cidade.

Agora, o catalão radicado na capital colombiana usa uma história local, a de uma artista colombiana cuja história trágica atravessa cidades do país, um exílio nos EUA, o envolvimento com o tráfico de drogas, o submundo bogotano, o romance com um poeta desalinhado, a morte. Para seguirmos sua história, embarcamos todos numa van em horário determinado pelo diretor, e começamos um tour por Bogotá através dos pontos mais marcantes da trajetória da personagem. Vamos a um parque nas alturas do cerro, em La Macarena, a um bordel do centro, a um bar de tango barato apinhado de fotos de Gardel.

Caellas, que se diz inspirado em Bogotá por “estar mais perto das estrelas”, na cidade a 2.600m do nível do mar, conta que com “Cuento Mi Vida” quer explorar o potencial documental do teatro: “diferentemente do cinema e da literatura, onde o documental, a não-ficção, a crônica têm cada vez mais leitores, o teatro ainda não desenvolveu muito o tema de trabalhar a partir do real”.

“Cuento Mi Vida” estreou ao mesmo tempo em que a cidade vive a agitação da Feira Internacional do Livro de Bogotá. Não por casualidade, contrapõe-se ao solene e convencional formato das estratégias do mercado editorial: palestras, leituras, mesas de discussão reunindo vários escritores, além da inevitável imagem de feirão de livros, que lota nos dias de visita, mas que dificilmente criam realmente novos leitores. “Eu tento sempre fazer-me perguntas sobre como tornar mais atrativos os eventos ao vivo, sejam obras de teatro, apresentações literárias ou conferências. Creio que os gestores culturais deveriam pensar mais no público do que nos nomes ao realizar eventos.”

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