Peruano, sim

Por Sylvia Colombo

Chegando hoje a Lima, me surpreendo vendo a diretora peruana Claudia Llosa na capa de várias revistas. De modo nenhum porque ela não mereça, pelo contrário, seu “A Teta Assustada”, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim de 2009, é um excelente filme. Também vi recentemente “Aloft” (ou “No Llores, Vuela”), sua obra mais recente, exibida na última edição do festival. E gostei muito, esotérico e climático, tenso como um thriller em aberto, angustiante, tem os personagens muito bem desenhados e um bom manejo de tempo _a história se passa em dois momentos, um no passado, quando uma mãe (Jennifer Connely) abandona o filho, e no presente, quando o mesmo  (Cillian Murphy) se transforma num caçador de falcões e a mãe, numa curandeira.

O caso é que “Aloft”, produção espanhola-canadense, está longe de ser um filme peruano em essência, pelo menos num primeiro e superficial olhar. A locação gélida é Winnipeg, no Canadá, e os atores são todos estrangeiros. Fiquei me perguntando onde está o elemento peruano, e alguns amigos que encontrei aqui respondem: está justamente nessa visão supersticiosa da vida, que faz lembrar a relação dos peruanos com os mitos, tão presentes na história pré-colombiana. Foi mais ou menos a resposta que ouvi no México, quando perguntava quais elementos mexicanos havia em “Gravidade”, super-produção hollywoodiana tão celebrada por lá pelo fato de ter um mexicano na cabeça da produção. A explicação dos amigos de lá era que a relação com o imaginário extra-terrestre está por ali desde os povos pré-colombianos _o escritor mexicano Juan Villoro, aliás, que está a caminho do Brasil, tem considerações fantásticas sobre a relação entre mexicanos e OVNIs. Ou seja, em tempos em que um filme sobre a escravidão norte-americana é produzido basicamente por um time de estrangeiros, é muito legal ver a América Latina fazendo parte como membro atuante e profissional dessas equipes, e não pelo aspecto exótico ou estereotipado.