A moça do sul

Por Sylvia Colombo

O filme “La Chica del Sur” é o destaque de amanhã na programação do festival “Silêncios Históricos e Pessoais”, na Caixa Cultural São Paulo (http://doctela.com.br/mostrasilencios/). Exibido em Buenos Aires no ano passado, o filme é o produto de uma experiência que durou décadas para o diretor Jose Luis Garcia. Em 1989, quando tinha 24 anos, o cineasta viajou ao festival mundial da Juventude e dos Estudantes, que era realizado em Pyongyang, na Coréia do Norte, com patrocínio da então União Soviética. Num grupo formado por estudantes e militantes jovens de esquerda argentinos, Garcia considerava que ia ver discussões de um projeto sério e viável de comunismo, exportável para a sua longínqua Argentina. O mundo acabava de assistir à tragédia de Tian’ Anmen, e Jose Luis pensou que este seria um dos principais assuntos. O silêncio sobre o tema, porém, imperava, substituído por um espetáculo de coreografias e exibições esportivas. “Na hora me dei conta de que era tudo uma ‘fantochada'”, disse, em entrevista ao blog.

Eis que surge, de repente, no meio da celebração, uma menina sul-coreana, que aparece fugida do seu país, a levar uma mensagem de paz e unificação do sul capitalista ao norte comunista. “Sua energia era tão contagiante, que nos abriu a cabeça para o verdadeiro problema que se vivia aí, para a complexidade de toda a situação, que não se resolveu até hoje e parece cada vez mais distante.” Ele continua: “nós achávamos que nossa viagem era revolucionária, mas na verdade estávamos fazendo turismo revolucionário. Quando ela surgiu, isso sim pareceu algo subversivo, ela correu um risco real de estar ali, de se expor, de fazer isso por seu país, pela liberdade.”

Outro plano do filme passará no futuro. Depois de deixar o filme adormecido por muitos anos, José Luis o retoma, e o resultado é um inusitado reencontro com a “chica del sur”. “É um filme que tem um significado especial para mim, meus irmãos, minha geração, porque está embebido na ideologia, no romantismo de nosso tempo. Ao mesmo tempo, ao fechar o ciclo, dá-se uma tomada de consciência, que é um processo de crítica histórica que está passando em todo o mundo.”

Garcia considera que era possível fazer analogias entre a Coreia do Norte da época (anos 80) e a Argentina dos anos 70 e que a experiência da viagem o fez refletir sobre os autoritarismos de direita e de esquerda. A reflexão, porém, ficou engavetada, e foi só nos anos 90, já durante a Argentina neo-liberal de Carlos Menem, que José Luis resolveu terminar o filme, após um período vivendo na França. Hoje, partidário dos Kirchner na Argentina, José Luis, porém, se diz preocupado com a polarização do debate político argentino. “Isso era o que eu via lá e me preocupava, a sociedade dividida, os que estavam no poder atormentavam os que não, e estes sentiam medo. A Argentina é mais complexa do que o que estamos vendo, esse governo, apesar de que eu o apoie, está levando as pessoas a colocarem-se umas contra as outras, e isso não é bom.”