O “karma” de viver ao norte

Por Sylvia Colombo

 

carlos-velazquez-foto-grande-624x468Dos livros de autores contemporâneos que trouxe da última visita ao México, um dos que mais gostei foi dica do amigo diplomata e entusiasta cultural Gustavo Pacheco. Trata-se de “El Karma de Vivir al Norte”, de Carlos Velázquez, 36. Dele, já tinham sido lançados, com projeção no mundo hispano-americano, “La Biblia Vaquera”, sua primeira investigação sobre a identidade do norte mexicano, e “La Marrana Negra de la Literatura Rosa”, uma coletânea de contos.

“El Karma de Vivir al Norte” (ed. Sexto Piso, Espanha) é baseado em sua experiência pessoal, crescendo e criando uma filha em Torreón, cidade de Coahuila, região assolada pelo sol e afetada pela guerra do Exército com o narcotráfico que sangra o país nos últimos anos. Velázquez tem um estilo seco, porém envolvente, e vai do niilismo ao conformismo ao contemplar o que vê. O livro ainda não tem tradução para o português, mas a entrevista abaixo dá o tom do estilo do escritor. Seguem trechos de sua conversa por e-mail com o blog Latinidades.

Pergunta – Qual a diferença entre fazer ficção e não-ficção diante da realidade que você vive em Torreón, que em suas palavras virou Torreonistão?

Velázquez – A vida me fez um jornalista. Me levou a descrever como a violência me afetava. A guerra contra o narco se transformou em um assunto pessoal. Durante um lapso de tempo pensei que poderia afastar-me da escalada de sangue que se desatou nesta cidade. Mas é impossível. A diferença entre a ficção e a não-ficção radica em que eu me sentia bastante cômodo na primeira. E não estava dentro dos meus planos sair da minha zona de conforto. Mas não consegui ignorar por completo o que se passava ao meu redor e me pus a teclar. Como não estudei jornalismo, nem mesmo fui à universidade, tomei elementos da literatura para desenvolver meu jornalismo narrativo. Ressaltei dois aspectos: colocar o relato à serviço da crônica e colocar a mim mesmo a serviço da história. Mas trabalhando com a realidade. Além disso, sentia que o jornalismo não precisava de mim, que já havia para isso gente como Alejandro Almazán e Diego Enrique Osorno [que escrevem em várias publicações, como a “Gatopardo”]. Porém, ao mesmo tempo, me senti libertado quando o fiz. Perdi o medo de trabalhar em outro registro.

Antes, pensava que só os jornalistas liam jornalismo. Agora estou lendo muito jornalismo para escrever meu romance. É um ofício que respeito muito. Sentia que não havia pago meu direito de estar nele e dedicar-me a ele.

Pergunta – Como te impacta, ao escrever, o fato de sua filha estar ao seu lado, num lugar como Torreón nos dias de hoje?
Velázquez – Escrever esse livro me reconciliou com a cidade. Recuperei o carinho por ela. Mas além disso, não há perspectiva nenhuma. Tanto o governo como os cartéis acabaram com ela. Quando Torreón se converteu num paraíso da criminalidade, roubavam-se 8 bancos a cada semana. Companhias de telefonia celular, seguradoras, a sensação de desamparo era assoladora. Em uma volta que demos uma tarde, de carro, o artista plástico José Jiménez Ortiz e eu passamos por fora de um lugar que haviam acabado de assaltar. Quando voltamos, a 4 quarteirões de onde estávamos, assaltaram outro local, não havia passado nem mesmo uma hora. E com relação às execuções, não sei em que se converteu isso. Porque uma guerra, definitivamente, não é. Em combate, se mata ou se morre, mas os combatentes sabem que estão em uma batalha. Aqui as pessoas não queriam ir à guerra. E mesmo assim caía morta nas mãos da delinquência. Sempre pensei que cedo ou tarde, minha filha, como muitas crianças, terão sequelas destes anos. Há crianças para quem o dano foi imediato. Há uns dias, em uma visita à colônia Victora, que é uma favela sobre o Cerro Azul, sentei-me a observar um grupo de meninos que brincavam na rua. São cautelosos com tudo. Não te olham, são calados. Recusam todo tipo de contato. Quase todos sabem que na casa que está na esquina de onde brincam, torturavam e matavam gente. Conhecem o ruído dos disparos de armas de alto calibre. E eu me perguntava quantos deles não terminarão como carne de cartel.

Pergunta – Sua geração criou um gênero, a narco-literatura? Vê a realidade mexicana bem representada na produção atual? Quais os vínculos com a tradição literária mexicana?

Velázquez – Quase todos os livros que foram produzidos pelo fenômeno da violência é lixo. Existem grandes exceções, mas em geral existe uma super-exploração do tema, em livros de pseudo-jornalismo e as chamadas narco-novelas. Nos faz falta mais perspectiva histórica para saber se esta geração está descrevendo bem o que acontece. Mas já existem alguns títulos que vão perdurar por sua qualidade, quando passe esse período. Porque o narcotráfico como tema em nenhum momento vai se esgotar, então apenas os livros que trouxerem algo para a literatura em geral vão continuar sendo lidos.

Os romances de Élmer Mendoza (“Nombre de Perro). Ou os livros de Yuri Herrera (“Señales que Precederan al Fin del Mundo”). Com relação à tradição existe uma conexão direta com o que se escreveu durante a Revolução Mexicana (1910). Não sei se meu livro se insere em alguma corrente, para mim não é um livro sobre o narco ou sobre a violência, tem suas debilidades, mas creio que o que o faz forte é a honestidade brutal com a qual foi escrito. Nesse sentido ignoro como dialoga com a tradição. Uma das razões pelas quais eu o escrevi é porque sentia que não existia um livro assim. Um relato em primeira pessoa por alguém que conhecesse o ofício da literatura. Que não estivesse filtrado pelo olhar do repórter. Ao final foi assim. Mas não se trata de um repórter informando, mas falando de si mesmo e como o golpeia, ainda que de forma lateral, a violência.

Pergunta – Por que você menciona o colombiano Fernando Vallejo como uma referência?
Velázquez – Com “A Virgem dos Sicários” (lançado aqui pela Companhia das Letras), Fernando inventou a narco-literatura. Como se trata de uma novela em primeira pessoa, abriu as portas para que muitos narradores como eu pudéssemos nos aventurar a escrever desde uma circunstância pessoal. Sem Fernando, talvez eu não tivesse escrito esse livro, ou se o tivesse feito, seria como uma investigação ou uma reportagem em terceira pessoa. E não tenho nada contra esse tipo de obra. Ao contrário. Eu poderia ter escrito um livro assim. Mas minhas necessidades eram outras. Me levaram para outros caminhos. Ao redigir o livro, além dos objetivos que tinha, existia um muito forte. A busca de uma voz. Uma voz que fosse diferente da voz da ficção, mas com um propósito, dar confiança a essa voz para explora-la em minha próxima obra, que será um romance. Foi isso que fez Fernando com as biografias que escreveu. Ali fez um polimento de sua voz antes de ir para a ficção. E não se trata, em absoluto, de livros menores. São belíssimos. Eu busquei seguir seus passos. Fui à crônica para melhorar a voz que quero para minha ficção.
Pergunta -Acredita que as condições do lugar em que vive influenciam também no formato que escolheu para sua narrativa, além dos temas?
Velázquez – Nunca havia pensado nisso. Creio que a concepção de um estilo é bastante complexa para considerar apenas uma influência. Existem coisas que só se podem dizer de uma maneira. Está aí o karma. Nesses dias, estou relendo obsessivamente a Tom Wolfe e vejo que existe um pouco dele em minha prosa. Mas não sei por que. O meio ambiente é parte importante de como se desenvolve um estilo. Viver na colônia Roma (bairro nobre da Cidade do México), em um apartamento e rodeado de gatos não me ajudaria a narrar como o faço. O que escuto nas ruas é parte vital do meu trabalho. Isso explica também porque nos últimos anos a literatura do Norte ganhou tanta importância. Porque no Norte a língua está viva. Se transforma constantemente, e isso produz uma literatura inovadora em relação a como evolui a língua.
Pergunta – A legalização das drogas é uma saída para o fim da violência no México?
Velázquez – O México foi à merda quando o governo se deu conta do grande negócio que era a droga. É óbvio que vai haver uma legalização. O Estado vai recuperar o negócio, vão ficar com tudo e se vão desfazer os cartéis. Então os cartéis se dedicarão aos sequestros, à extorsão e ao tráfico do que se possa. Porque nesse país a droga não é o principal problema. A bronca é que não existe o Estado de Direito. E enquanto não se aplique a lei, vai seguir essa situação calamitosa.