A coragem de Adolfo Suárez

Por Sylvia Colombo

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Em tempos de polarização de opiniões políticas, em que parece não haver espaço para a tolerância nem para a compreensão de que a complexidade de matizes ideológicos enriquece qualquer democracia, a morte, ontem, do líder espanhol Adolfo Suárez (1932-2014) deixa elementos para uma boa reflexão sobre os tempos que vivemos.

O personagem está longe de ser facilmente decifrado, mas uma das chaves está certamente no livro do espanhol Javier Cercas, lançado aqui no Brasil após sua participação na Flip (Festa Literária de Paraty) há dois anos. “Anatomia de um Instante” (Globo) tenta explicar, justamente, a cena acima. Suárez corajosamente de pé no Congresso, enfrentando tropas leais ao franquismo que queriam destruir a recém-instalada democracia espanhola com um golpe de Estado. O país saía da escuridão dos anos de ditadura. Neste exato momento em que Suárez, desarmado, está de pé diante dos soldados e seus rifles, há deputados que correm para fora da sala, outros que se escondem debaixo das mesas, em cenas vistas ao vivo pelos espanhóis, no fatídico dia conhecido como 23-F (23 de fevereiro de 1981).

Quem nunca viu essas imagens, não perca. Sim, os militares atiram, várias vezes, dentro do recinto. Os ecos da ditadura e dos anos de violência pós-Guerra Civil Espanhola seguem vivíssimos então.

Suárez havia sido um político falangista. Quando o Rei o escolhe para comandar o primeiro governo eleito da Espanha após a morte de Franco, seu nome inspira dúvidas dos dois lados. Os fascistas não o consideram suficientemente extremista e leal, os de esquerda, duvidam de seu discurso democrático. “Ninguém na Espanha achava que a democracia ia ser feita na Espanha sem sangue, sem guerra, sem revolução, e Suárez conseguiu fazê-lo.”

Entre os aliados que foi chamando para perto de si, estava Santiago Carrillo (1915-2012), líder comunista histórico, chamando finalmente seu grupo à legalidade. Entre seus feitos, listados exaustivamente hoje pelos jornais espanhóis, estão ter concedido uma ampla anistia, aprovado uma reforma política trazendo de volta ao Congresso partidos banidos pelo franquismo, feito a paz com sindicatos de trabalhadores, e dado início a uma assembléia constituinte que elaboraria uma carta, antes de tudo, de consenso social. Como bem lembrou a colunista Soledad Gallego-Díaz, em texto publicado hoje no “El País”, tudo isso em meio a greves, protestos pelo aumento da inflação e a ameaça real de retorno dos militares leais ao franquismo.

Trata-se de um típico caso em que santificar ou demonizar o personagem seria incorreto. Porém, quando vão ficando tão distantes no tempo os fatos violentos que deram origem a um regime autoritário e polarizador, vai ficando mais interessante ler a história com olhar crítico. Na Espanha, naquele período, foi esse homem, nem bandido, nem mocinho, quem conseguiu ter a visão conciliadora de construir uma democracia com base na diferença _e não impor um “consenso”. “Ele teve muita coragem, moral, política e física”, concluiu Javier Cercas, em entrevista a uma rádio espanhola concedida hoje.