“Gloria” e o novo Chile que vem aí

Por Sylvia Colombo

O Chile é um dos países mais conservadores da América Latina. Último da região a aprovar o divórcio (2004). Onde ainda se cometem crimes homofóbicos terríveis, como o recente assassinato de Daniel Zamudio (em 2012), queimado por neonazistas. No Chile, por incrível que pareça, uma boa fatia da sociedade ainda acredita que a ditadura militar (1973-1990), que provocou mais de 3 mil mortes, foi um bom negócio.

Por sorte, algo vem mudando ali nos últimos dez anos, e a nova eleição de Michelle Bachelet, que assume seu segundo mandato como presidente no próximo dia 11, é um sinal disso.

Os bons números da economia, ainda, têm dado impulso à vontade de mudança, e os estudantes e a sociedade indo às ruas nos últimos anos é uma prova dessa inquietação.

Desde sua primeira eleição, Bachelet deu força e confiança às mulheres de seu país. Popularizou-se entre as moças e senhoras de meia-idade o cabelo curto e a busca por uma vida mais independente.

Os anos passaram, surgiu uma nova liderança feminina, dessa vez a jovem Camila Vallejo, e o país celebrou os 40 anos do golpe militar (em 2013) com uma mensagem de conciliação. Não tão eficiente como a vizinha Argentina, passou a investigar crimes dos anos da repressão que estavam em aberto, e a ditadura deixou de ser um tabu.

Prova disso é o excelente “No” (2012), filme de Pablo Larraín que mostrava a campanha pela opção “não” no plebiscito que definiu a saída do general Pinochet do poder.

É de Larraín, justamente, a produção do sensível “Gloria”, que representou o Chile no Oscar deste ano, foi destaque em Berlim,  e serve como um bom termômetro do Chile dos nossos dias. O longa conta a história de Gloria (Paulina García), uma mulher de 58 anos, que está sozinha e decide que quer continuar tendo uma vida de emoções e paixões.

Vai a festas, canta, arruma-se e termina por conhecer um homem de 65 anos, Rodolfo (Sergio Hernández), recentemente separado e extremamente frágil. Gloria cai de cabeça na relação, mas Rodolfo hesita em aceita-la e integra-la à sua vida. Vive, ainda, atado à ex-mulher e às filhas do casal.

Gloria é charmosa e sexy, levemente cômica com seus grandes óculos e ar almodovariano. Bebe e fuma, ri alto, ou seja, quebra todos os tabus da educação feminina cristã tão potentes na América Latina.

A decepção e o sofrimento são inevitáveis, e Gloria desperta descabelada e abandonada numa praia de Valparaíso. Sua escolha será dar a volta por cima e, no Chile de hoje, isso parece cada vez mais possível. Quando o filme termina ela deixa claro que não se renderá a uma velhice gris e triste tão cedo, quiçá nunca o fará.

Em entrevistas, o roteirista da película, Gonzalo Maza, diz ter se inspirado em sua mãe e nas mulheres de sua geração, e que sua ideia foi justamente analisar as transformações do Chile através do ponto de vista dessas mulheres. Por outro lado, Maza reconhece que o tema é, também, universal.

“Hoje em dia, a essa idade se abre um novo episódio da vida. O mundo está cheio de Glorias.”