Michoacán e Rio, o que acontece quando os civis resolvem fazer justiça com as próprias mãos

Por Sylvia Colombo

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“Quem é você”, pergunta o sujeito de calça jeans, pistola na mão sem nenhum cuidado, nem cinto de proteção. Ele está com o rosto tapado e só consigo ver seus olhos. Plaquinha no peito indicando qual o seu nome (como a polícia regular usa), nem pensar. Não sei quem ele é. Se me tratar mal, não sei a quem reclamar. Se alguém me ameaçar, não tenho nenhuma segurança de que ele pode me ajudar. Fora ele, já não há mais nenhuma autoridade na cidade, nenhum policial, nenhum soldado. O prefeito é uma marionete. A população, assustada, os obedece e inicia-se um clima de delações e paranóia entre os vizinhos. Assim agem os “autodefensas”, grupos de milícia civil completamente fora da lei que estão tomando o controle de várias cidades do Estado de Michoacán, no Sul do México.

Cansados da falta de eficácia do governo, do Exército e da polícia (que são um fato, em muitas regiões mexicanas hoje) contra a expansão do crime organizado dos grandes cartéis de narcotráfico, eles resolveram pegar em armas e fazer justiça pelas próprias mãos. São empresários rurais, trabalhadores, comerciantes, alguns, ex-narcos expulsos dos cartéis. Imagine como é acordar numa cidade assim, em que os “autodefensas” estão em cada esquina, contam com um esquema de denúncias por parte dos vizinhos. Não obedecem a nenhuma entidade, governo ou palavra escrita. Matam sem julgamento. Estão totalmente à margem do estado de direito. Hoje, na Folha, há uma reportagem minha sobre o assunto, no caderno Mundo.

Andar por Michoacán esses dias me fez pensar no caso do adolescente carioca brutalmente agredido por pessoas de classe média, no Aterro do Flamengo, que decidiram por si só “patrulhar a área” e “fazer o que a polícia não faz”. O resultado, como todos vimos, é o tratamento bárbaro a que o jovenzinho foi submetido, com requintes de crueldade. Hordas de comentaristas saíram em defesa dos justiceiros, com os argumentos mais primitivos que se possa imaginar em pleno século 21 e há quase trinta anos da reconquista da democracia em nosso país.

Michoacán nos dias de hoje serve de alerta aos setores do Rio de Janeiro que querem acabar com as próprias mãos com o crime organizado e roubos. Aos que defendem os cruéis torturadores do rapaz carioca, um alerta. A população das cidades michoacanas segue assustada e desamparada, agora sem garantias básicas, uma vez que se estabeleceu uma terra sem lei, onde dinheiro e interesses de grupos isolados prevalecem em detrimento do bem comum. Aos brasileiros que creem que dá para seguir essa trilha, recomendo ler mais sobre a realidade mexicana.

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