Paris, capital do exílio político latino-americano

Por Sylvia Colombo

Assim como o mercado e o meio editorial brasileiros ficaram em polvorosa no ano passado com relação à seleção de autores para participar da Feira de Frankfurt, na qual o Brasil era homenageado, agora a mesma disputa ferrenha acontece entre os argentinos, país convidado de honra do Salão do Livro em Paris, em março próximo.

Desde o começo da era kirchnerista, os intelectuais se dividiram entre os pró e anti-governo. Os abertamente a favor formaram até um grupo, o chamado Carta Abierta, que busca justificativas teóricas para o aumento do centralismo e autoritarismo de Cristina, sob um discurso de defesa do “nacional” e do “popular”. No outro extremo, foram ficando intelectuais mais chamados de “liberais”, o que para muitos na Argentina significa dizer “direitistas” e até “apoiadores do regime militar”. É nesse campo minado que esse tipo de celebração aparece, às vezes para dividir mais do que para reunir.

A seleção dos autores que estarão presentes no evento, anunciada recentemente pela secretaria de cultura da nação, tem em sua maioria, autores simpáticos ou amplamente apoiadores do kirchnersimo, Horacio Gonzalez, Martín Kohan Mempo Giardinelli e outros.

Porém, deixando um pouco a política de lado, o evento jogará luz numa das mais importantes efemérides das letras no planeta. Trata-se do centenário de nascimento de Júlio Cortázar, autor argentino de origem belga, que radicou-se por muitos anos em Paris e fez da Cidade-Luz a sede de referência de toda sua obra.

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O ano de 2014 marca também os 50 anos da publicação de “Rayuela”, seu livro mais importante, sobre o qual escrevi para a Ilustrada no ano passado ( www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/07/1310377-classico-do-argentino-julio-cortazar-e-relancado-aos-50.shtml).

Em Paris, a homenagem a Cortázar terá uma exposição de fotos da veterana Sara Faccio (algumas inéditas), e uma grande homenagem a Paris como centro para o qual muitos intelectuais, artistas e jornalistas viajaram e se exilaram durante os difíceis anos da ditadura e da repressão militar (1976-1983). A exposição marca um novo passo no longo trabalho de reedição e organização de suas obras completas, que estão sendo tocadas pela viúva, Aurora Bernardini, e pelo especialista em sua obra, o catalão Carles Garriga. A boa notícia de 2014 é que se reimprimirá toda a biblioteca Cortázar, complementando a edição de suas cartas reunidas, há dois anos atrás.

Curiosamente, tudo isso ocorre enquanto na Argentina intelectuais, acadêmicos e especialistas em sua obra debatem seu real valor literário e histórico. Nos últimos tempos, surgiu uma corrente que defende que o escritor foi sobrevalorizado e que trata-se mais de um autor importante para os anos de formação literária de alguém, mas que não chegaria a um nível de cânone. Seus defensores, obviamente, consideram isso um acinte. Essa é uma guerra que veremos ser travada neste ano.

Outra homenageada será a simpática e genial Mafalda, que também faz aniversário, de 40 anos. Seu autor, Quino, deve também viajar, apesar de andar meio afastado de eventos devido a problemas de saúde. A festa contará ainda com 40 escritores e um total de 26 mil títulos, que viajarão para a capital francesa nesses dias.

Para ilustrar a passagem de tantos autores latino-americanos por Paris, aqui a gravação de um encontro histórico e esquecido. Um debate para a televisão francesa com três dos autores mais importantes do continente no século 20, os três já mortos, os argentinos Cortázar e Juan José Saer, e o paraguaio Augusto Roa Bastos.