O mapa do cinema da AL e “7 Cajas”

Por Folha
(Reprodução/ Gustavo Teramatsu)
(Reprodução/ Gustavo Teramatsu)

Um divertido quadro que circulou nas redes sociais na semana passada (realizado por Gustavo Teramatsu) mostrava o melhor filme de cada país latino-americano, segundo o site Imdb. No Brasil, o destacado foi “Cidade de Deus” (2002), na Argentina, “El Secreto de Sus Ojos”  (2009), no Chile, “Machuca” (2004), no México, “Amores Perros” (2000), e assim por diante. São filmes que despontaram rápido e ganharam imediata projeção internacional. “Cidade de Deus” teve indicações ao prêmio máximo de Hollywood mostrando a dura realidade da favela carioca, o representante chileno fez com que várias plateias latino-americanas se identificassem com essa história infantil durante a ditadura, o filme mexicano levou ao noticiário internacional a violência urbana do país e projetou atores como Gael García Bernal, mas foi o filme argentino o melhor sucedido, levando o segundo Oscar do país (o Brasil não possui, até hoje, nenhuma estatueta).

Menos badalado, mas já com uma carreira internacional invejável (ganhou prêmio do júri em San Sebastian e foi indicado ao Goya espanhol), está o paraguaio “7 Cajas”, exibido no ano passado no Festival do Rio e, agora, com estreia brasileira marcada para março.

O filme se passa num mercado popular de Assunción, o Mercado 4, que ocupa cerca de oito quadras na capital paraguaia e é uma verdadeira cidade. Suas ruelas apinhadas de gente correm entre barracas de frutas e verduras, pequenos açougues, tendas que vendem celulares e quinquilharias eletrônicas e restaurantes chineses.

É ali, numa tarde de sexta-feira em que o termômetro marca 40ºC,  que o menino Victor, 17, que trabalha fazendo bicos de carregador, recebe a encomenda de levar uma mercadoria de um ponto a outro do mercado. São sete misteriosas caixas cujo conteúdo ele desconhece. O patrão toma uma nota de US$ 100 e rasga em duas. Se fizer o trabalho direito, receberá a outra metade. Assustado, sem nem saber direito quantos guaranis poderia comprar com aquele dinheiro, Victor (Celso Franco) começa a se movimentar rápido. Seus olhos só se desviam da tarefa quando ele vê os aparelhos de TV ligados no caminho, seu sonho é aparecer na televisão. Ou quando aparece sua amiga Liz (Lali González), que não para de questionar quão suspeita e perigosa parece a missão.

De fato, as coisas se complicam quando um rival de Victor entra em cena imaginando que a carga é muito valiosa, tenta emboscadas e faz com que uma das caixas desapareça. Num outro plano, descobrimos que, na verdade, houve uma imensa confusão e o que as caixas carregam é o corpo esquartejado de uma mulher. A polícia, corrupta e assustada, corre de um lado para o outro tentando adivinhar quem é o bandido e quem é o mocinho.

Dirigido por Juan Carlos Magnelia e Tana Schembori, o filme exibe um cenário e uma situação que poderiam ser compartilhados com várias cidades latino-americanas. A pobreza, o crime, a polícia corrupta, o encanto pelo celular e pela televisão, os sonhos de uma juventude que emerge em países cujas economias têm melhorado nas últimas décadas, mas cuja distribuição de riqueza ainda é muito injusta e desigual. O Victor paraguaio tem muito em comum com os jovens protagonistas dos outros filmes que aparecem no mapinha exibido no alto deste post. “7 Cajas” pode abrir os olhos dos brasileiros para os paralelos entre a realidade social do Brasil e esse vizinho, tão menosprezado e injustiçado em nossa história regional.