Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Menos Lars Von Trier, mais… Néstor!

Por Sylvia Colombo

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Há algo de errado num país em que nada menos do que DOIS filmes sobre um ex-presidente morto dominam todo o debate cinematográfico enquanto mal ficamos sabendo sobre a estréia retumbante de “O Grande Gatsby”, versão de Baz Luhrmann, nem sobre a polêmica já armada pelo novo do dinamarquês Lars Von Trier, “Nymphomaniac”.

A Argentina já foi mais cosmopolita culturalmente. Festivais de cinematografias de diferentes partes do mundo e mesmo variedade geográfica no cardápio do cinema comercial eram marcas registradas. Em tempos de kirchnerismo e consequente isolamento cultural, isso vai ficando mais raro. As barreiras à importação e o discurso ideológico-nacionalista vão causando rejeição à produção estrangeira.

Para agravar o quadro, os de dentro do próprio círculo do governo não se entendem. O filme “Néstor – La Película”, que começou a ser rodado em 2011 pelo uruguaio radicado em Buenos Aires Adrian Caetano (“Crónica de una Fuga”, “Oso Rojo”), vinha causando grande expectativa. Esperavam-se revelações e bastidores da primeira fase do kirchnerismo _a juventude política de Néstor, sua presidência e os detalhes sobre sua enigmática morte. Prestes a ser finalizada, porém, a película foi arrancada das mãos de Caetano e entregue à Paula de Luque. Os produtores não estavam de acordo com o recorte do uruguaio e preferiram o olhar mais “oficial” da diretora chapa-branca, que tinha em seu currículo apenas um filme grande, o comercial e panfletário “Juan y Eva”, sobre o casal fundador do peronismo. Detalhe, a produção usou dinheiro público, de impostos dos cidadãos argentinos.

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Há cerca de um ano atrás, a versão de Paula entrou em circuito. Tratava-se de um filme laudatório, com trilha sonora (Gustavo Santaolalla) grandiosa, focado numa suposta intensa vida militante do presidente _que já se sabe que não ocorreu_ e elogiosa dos avanços da atual gestão. Havia, entre outras coisas irritantes, a história de um jovem violinista que havia recebido seu instrumento de Néstor, e que aparecia aqui e ali arranhando suas cordas com uma luz romântica sobre ele. Quando Néstor dava seus discursos, óbvios e banais, era acompanhado por uma trilha para dar a impressão de que era um sábio e um grande orador. Tentativa fracassada e jeca, obviamente.

Agora, Cristina Kirchner resolveu dar vida à primeira versão do filme. Não casualmente, num momento em que o ex-marido está sendo intensamente atacado por meio de denúncias jornalísticas de que havia chefiado uma mega-operação de lavagem de dinheiro. No último domingo, enquanto o jornalista Jorge Lanata expunha as falcatruas de Néstor e uma verdadeira gangue, Cristina postava tuíts elogiando o filme de Caetano e dizendo que a película lhe fazia lembrar-se do olhar do ex-marido.

Apesar de ligeiramente mais crítico e menos chapa-branca que o filme de Luque, a versão do uruguaio não toca temas delicados e constrói uma imagem positiva e até grandiosa do inexpressivo Néstor. A única diferença em seu favor é de que seu filme demonstra ter sido feito por um cineasta de verdade. É melhor cinematograficamente. Tem imagens mais selecionadas de campanhas do passado, curiosas passagens de sua vida pessoal, uma reconstrução de Santa Cruz nos tempos da juventude dos Kirchner, e também mais informação. Se no filme de Paula se passava muito por alto pela crise do campo, a eleição de 2003, no de Caetano esses episódios estão melhor contados. Não é preciso estar submergido na história argentina para entender algumas passagens e personagens.

Resulta curioso ver e comparar as duas versões. A de Paula já saiu de cartaz, a de Caetano está só no Youtube, mas o diretor promete um corte novo e a obra deve chegar ao cinema, já que a presidente pediu e autorizou _é assim que funcionam as coisas no reino de Cristina…

Ainda assim, faz falta saber e ver mais da produção internacional aqui. Tirando o Bafici, festival de cinema independente que ocorreu há poucas semanas, sabe-se pouco do que se faz lá fora. Publicações especializadas não há, e os cadernos culturais, se cobrem muito bem (melhor que no Brasil) a área de literatura, são uma negação quando o assunto é cinema. Uma pena, menos Von Trier, Almodóvar, J.J. Abrams, mais Néstor Kirchner. O que será da vida cultural portenha se o kirchnerismo persistir pós-2015?

 

 

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