Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Intervenção no Clarín?

Por Sylvia Colombo

Não será uma semana fácil para o grupo Clarín, maior conglomerado de mídia do país, que o governo considera um monopólio e contra quem está em guerra desde 2009. A novela é longa e complicada, mas basta com dizer que o grupo sempre foi um aliado dos governos argentinos nos momentos em que isso era para todos conveniente. Noutros, em que o negócio corria risco, voltava-se contra quem estivesse no poder.

Essa situação pendular encontra-se agora num momento extremo. O enfrentamento é claro, aberto e violento. Nos últimos dias, vem crescendo o boato de que o kirchnerismo prepara uma grande operação de intervenção administrativa no grupo. Este, por sua vez, colocou sua tropa na rua. Jornalistas históricos da casa encontram-se no batalhão de frente trazendo acusações e oferecendo uma visão editorializada da realidade em forma de jornalismo. Quem lidera é o showman Jorge Lanata no programa “Periodismo Para Todos”, que vai ao ar pelo canal 13, da TV aberta, pertencente ao grupo Clarín.

Há três semanas, Lanata vem trazendo aos argentinos aos domingos à noite uma série de denúncias sobre um esquema de lavagem de dinheiro que envolve a Casa Rosada, ministros, empresários aliados ao governo e agentes do mercado financeiro. Nas próximas horas, Lanata voltaria a atacar, trazendo nada menos do que os planos de esconderijos secretos em que Cristina Kirchner guardaria notas e notas de dólares, em sua casa, em Santa Cruz (Patagônia).

O governo vinha tentando debilitar o Clarín através da Lei de Mídia, que obrigaria o grupo a desinvestir, o que fatalmente o faria perder seu canal de televisão. A lei, porém, tem suas cláusulas mais polêmicas travadas na Justiça. O kirchnerismo, então, lançou mão de outras artimanhas.

Uma delas entrou em ação há duas semanas, quando o secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, e o vice-ministro de economia, Axel Kiciloff, entraram numa reunião de acionistas do Clarín berrando e dando ordens a uma equipe de câmaras e taquígrafos que os acompanhavam. Entre outras coisas, Moreno dizia que a empresa ia muito mal e não estava “dando lucro”. A estratégia que se considera é que o governo, como dono de 9% das ações do grupo desde a nacionalização dos fundos de pensão, irá pedir mudanças na estrutura administrativa do grupo. Isso seria possível através de uma lei aprovada no ano passado que dá a acionistas minoritários direito de intervir, sem a mediação da Justiça, na organização das empresas.

Por outro lado, o governo intensificou sua ação sobre a Papel Prensa, empresa de papel-jornal de propriedade do Clarín, do La Nación e do Estado. O Clarín tem 49% das ações, o governo, apenas 22%. Através de um projeto de lei que já está no Congresso, o governo poderá expropriar 24% das mesmas, tornando-se sócio majoritário da empresa, prejudicando e controlando o abastecimento de papel da empresa.

No final da tarde desse domingo, circulava um boato forte de que uma intervenção dos kirchneristas no grupo estava por vir. O colunista do “La Nación”, Joaquim Morales Solá, fez o alerta por meio de sua coluna dominical. À Folha, Lanata disse: “Querem me tirar do ar”. Entre os integrantes da Redação do jornal, o clima é de tensão.

Com a Justiça dobrada pela reforma judiciária, a empresa não tem muito a quem apelar. Os próximos dias podem pintar um novo cenário de relação do poder com os meios. Isso para usar um eufemismo…

 

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