Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Hatoum, Ruffato, o Brasil em Buenos Aires

Por Sylvia Colombo

Devagarzinho, a literatura contemporânea brasileira vai aparecendo no disputado mercado editorial portenho. Apesar da proximidade dos dois países, conhece-se pouco da produção atual dos dois lados da fronteira. No caso da Argentina, o conhecimento do que se escreve e se escreveu no Brasil é limitado a alguns nomes do cânone, Clarice Lispector, Jorge Amado, Rubem Fonseca. Nem Machado de Assis tem sua obra bem dimensionada por aqui.

A 39a edição da Feira do Livro de Buenos Aires, maior evento do mercado editorial do país, corrigiu uma lacuna dos últimos anos. Em 2012, não houve brasileiros convidados a falar, e a presença do país foi minúscula. Em 2013, o pavilhão verde-amarelo já é bem mais vistoso, ainda que com pouca participação das editoras _nota-se que o desinteresse, portanto, está dos dois lados. Os poucos livros em português enviados pela Companhia das Letras, pela Cosac e outras, esgotaram rapidamente. No sábado, o pavilhão estava lá, os livros não…

Por outro lado, outras editoras locais vem descobrindo o filão brasileiros, como é o caso da Adriana Hidalgo, que recentemente incorporou ao mercado novos títulos: Ronaldo Correia de Brito, Nelson Rodrigues, João Gilberto Noll, além de novas traduções, como de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Editoras menores têm trazido à luz autores mais alternativos, como Ferréz.

No que diz respeito aos autores, a participação brasileira na feira melhorou. Estiveram presentes o amazonense Milton Hatoum e o mineiro Luiz Ruffato. Ambos falaram ontem. Enquanto Ruffato participou da mesa “Los Grandes Temas o la Fuerza del Detalle. El Tamaño de las Histórias en la Literatura Latinoamericana Actual”, Hatoum foi convidado ao Café Amsterdã, espaço bom-astral, meio café, meio auditório, armado no meio do pavilhão amarelo. Sua mesa foi: “Leituras Cruzadas: Europa, América Latina y los Imaginários Compartidos”.

A estranheza do público com relação aos temas do Brasil ficou exposta nas perguntas. Uma leitora perguntou a Hatoum o que era o imaginário brasileiro. Para sua decepção, ele respondeu que isso não existe. “Não existe imaginário brasileiro, existem exotismos brasileiros, o Carnaval, o futebol, as mulatas. Quando se fala de literatura brasileira no exterior, se menciona Paulo Coelho, mas Paulo Coelho não representa a literatura brasileira. Paulo Coelho não representa nada.” E acrescentou que a diversidade marca a nossa tradição, e abordou o tema da cor local na literatura. “Clarice Lispector não fala do Rio de Janeiro, fala de algo interior que é universal. O que há de brasileiro é a sua linguagem.” Depois, relacionou a antropofagia brasileira a outros movimentos latino-americanos e reforçou a importância da memória da infância entre suas referências essenciais.

A feira, que neste ano homenageia a cidade de Amsterdã, segue até o próximo fim-de-semana, com a apresentação de livros e palestras de escritores nacionais e convidados, como Laura Esquivel, Artur Perez-Reverte, Wladimir Sorokin, Cees Nooteboom e outros.
Mais informações em www.el-libro.org.ar.

 

 

 

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