Sylvia Colombo

Latinidades

 -

Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

Perfil completo

Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Esses incríveis pensadores-viajantes

Por Sylvia Colombo

 

Em momentos em que os argentinos vivem um período de isolamento internacional, tanto no plano político/ideológico, com o nacionalismo exaltado que promove o kirchnerismo, como no plano econômico, com as barreiras comerciais impedindo a entrada de fraldas a livros importados, é interessante lembrar um período em que o país parecia mais arejado e aberto ao que se passava pelo mundo afora.

 

Um bom exemplo disso é a experiência dos pensadores-viajantes, uma categoria de intelectuais que teve sua época dourada na segunda metade do século 19 e primeira do 20. O trabalho de um de seus nomes mais importantes, Lucio V. Mansilla (1831-1913) acaba de ser reunido num volume, “El Excursionista del Planeta”, organizado por Sandra Contreras para a editora Fondo de Cultura Economica, recém-lançado em Buenos Aires.

 

Mansilla vinha de uma família cuja relação com a história argentina era estreita. Seu pai, Lucio N. Mansilla, foi militar e participou da Batalha de Obligado, importante embate da Argentina contra franceses e ingleses em 1845, e era parente do ditador Juan Manuel de Rosas. Mansilla, que se mantinha afastado ideologicamente dos familiares, foi deputado, governador e influente referência nas relações exteriores do país.

 

Seu livro mais famoso, “Uma Excursão aos Índios Ranqueles”, é um dos textos essenciais da Argentina no século 19 e narra como viviam povos originários do sul do país em 1867. A expansão da “civilização” branca sobre o território “bárbaro” indígena do sul do país é um tema definidor na formação da Argentina contemporânea.

 

Mas a faceta mais interessante de Lucio Mansilla, porém, é a do viajante, que iniciou numa idade ainda muito precoce. Contreras o define como um “globe-trotter sulamericano avant la lettre”. Aos 18 anos, foi um dos primeiros argentinos a ir à Índia e descrever por meio de relatos esse país longínquo e desconhecido para seus patriotas. Em seus escritos, gaba-se por ter viajado com tão diferentes meios: “barco a vela, vapor, trem, carreto, cavalo, a pé, em carro, em elefante, em camelo, em burro, lombo de mula e de homem”.

 

Preocupado com a transição para a modernidade do século 20, de olho nas vanguardas artísticas que iam surgindo e mudanças de costumes, Mansilla apresenta um quadro que é ao mesmo tempo um termômetro de como essas transformações impactavam o pensamento e comportamento da elite das Américas. Aberto às novidades, também deixa expor seu espanto e uma preocupação.

 

No seu roteiro, além do Oriente, que visita em mais de uma ocasião, estão inúmeras visitas à Europa, ao Oriente Médio e a países latino-americanos. Em seus relatos convivem tanto a análise política como a observação de costumes. É possível encontrar tanto a descrição de mulheres nos salões de Paris como dicas da melhor época para viajar à Grécia, do melhor hotel para hospedar-se em Atenas, onde se pode tomar um bom café turco e como são os cigarros gregos. Ao mesmo tempo, ocupa-se das intrigas entre imperadores e nobres do Leste Europeu, a geopolítica europeia e o legado da França revolucionária nos conceitos políticos da época, a Exposição de Paris. Ainda, resenha livros de Balzac, Gorki, D’Annunzio e obras de autores argentinos, enviadas por jornais de Buenos Aires para que comentasse. Passa, ainda, por descrições da natureza, como quando visita o Himalaia. Seu lema era “Nulla dia sine linea” (nenhum dia sem uma linha) e sua produção, de crônicas, cartas, artigos e ensaios, foi muito prolífica.

 

Em 1902, Mansilla se estabelece em Paris, onde viveria até o fim de seus dias, em 1913. Nunca deixou de participar da política argentina e, frequentemente, visitava Buenos Aires, onde sempre foi voz ouvida entre a cúpula governante.

Junto a outros autores mais ou menos contemporâneos, como Sarmiento e Alberdi, Mansilla foi um homem adiante de seu tempo que teve a ousadia de ler o mundo pensando no futuro e no lugar que sua Argentina teria nele. Nada parecido com o pensamento vigente e curto-prazista dos políticos do país em tempos de kirchnerismo.

 

 

 

Blogs da Folha