Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Os “kelpers” preparam sua festa

Por Sylvia Colombo

Às vésperas do referendo em que decidirão se querem ou não seguir fazendo parte do Reino Unido, os malvinenses começam a viver o clima da votação dos próximos dias 10 e 11 de março. Nesta semana foi lançada uma coleção de selos comemorativos, nos quais diferentes mãos são mostradas inserindo o voto numa urna que tem a imagem do mapa do disputado arquipélago.

As ilhas são reivindicadas históricamente pela Argentina, desde que os ingleses expulsaram o grupo de colonos que as habitavam em 1833. Em 1982, uma cruel guerra praticamente destruiu o sonho argentino de reavê-las. A vitória britânica foi avassaladora e vergonhosa para a ditadura militar que controlava a Argentina.

Em geral muito silenciosos com relação a seus desejos, os “kelpers” agora levantaram a voz e estão deixando muito claro que irão às urnas com vontade de declararem-se 100% britânicos. Além do selo e das festas programadas, os malvinenses também estão afinando o sentido de humor. Em sua última edição, por exemplo, o jornal “Penguin News” publicou uma entrevista imaginária com o chanceler Hector Timerman. Principal voz do governo kirchnerista na campanha argentina pelo retorno das ilhas a seu poder, Timerman é bastante satirizado pelos “kelpers”. É exatamente o que acontece na “entrevista”, traduzida abaixo.

P – Quais são suas três possesões mais apreciadas?

Timerman – Depois das Ilhas Malvinas, minha integridade e minha honestidade (isso dá três coisas?).

P – Qual foi o melhor conselho que já lhe deram?

Timerman – Faça o que eu te digo, porque se não… (de minha presidente Cristina Kirchner).

P – Com quem gostaria de tomar um mate?

Timerman – Con William Hague (chanceler britânico), ainda que somente se estiver sozinho [um encontro entre os dois, planejado para o mês passado, em Londres, foi cancelado por Timerman porque seu par inglês exigia a presença de dois “kelpers”].

P – Se você tivesse um lema, qual seria?

Timerman – Se for dizer uma mentira, que seja uma grande.

P – Qual coisa do dia-a-dia mais te incomoda?

Timerman – A reticência das pessoas em crer nas minhas palavras.

P – A quem nomearia como governador das ilhas Malvinas?

Timerman – Vocês já têm um governador: se chama Fabiana Ríos (governadora da Terra do Fogo) e ela vive na sua capital: Ushuaia.

P – Que característica sua surpreenderia as pessoas?

Timerman – Que eu tenho um cérebro próprio e não sou um títere de Cristina.

P – Qual foi o melhor livro ou filme que leu ou viu recentemente?

Timerman – “Grandes Mentiras para Meninos Pequenos”, de Andy Riley (um livro sobre história argentina).

P – Qual é a recordação mais feliz de sua infância?

Timerman – Quando podia olhar meu pai nos olhos sem sentir-me envergonhado (Jacobo Timerman foi um autor, jornalista e editor argentino perseguido e honrado por afrontar as atrocidades da guerra suja durante o regime militar argentino).

P – Qual é sua especialidade?

Timerman – Reescrever a história argentina para mostrar populações anteriores e campanhas genocidas realizadas contra elas. Mas colocando especial ênfase em como os pérfidos britânicos fizeram em 1833 uma limpeza étnica das Ilhas Malvinas para seus propósitos colonialistas e desafiaram nossas tentativas pacíficas de solucionar a disputa pela soberania em 1982.

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