Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Uma outra Buenos Aires

Por Sylvia Colombo

Nesses dias de calor absurdo, em que Buenos Aires está a ponto de colapsar pela falta de estrutura para suportar as chuvas e o alto consumo de energia elétrica causado pelo ar condicionado, visitar a beira do Rio da Prata é um alívio. Mais ainda se o que se pode ver é uma exposição de imagens da cidade nos últimos 50 anos. Um tempo em que o caos urbano ainda estava sob controle, e os elementos mais característicos da cidade eram mais fáceis de detectar e admirar.

É o que se pode ver na exposição “Aldo Sessa – A Cidade em 50 Anos”, que reúne 130 imagens desse pintor e fotógrafo portenho de ascendência italiana. A mostra está no Museo Fortabat, no bairro de Puerto Madero. Aos 73, Sessa oferece aqui um retrato da cidade através de diferentes abordagens e personagens. Está a Buenos Aires dos parques _Sessa é apaixonado pelo Rosedal dos bosques de Palermo_ do porto, dos campos de futebol da periferia, dos monumentos históricos como o Obelisco ou o Teatro Colón, assim como os dos bairros do sul, Barracas e a Boca.

“Buenos Aires é uma cidade composta por uma quantidade de pequenas coisas queridas que a transformam seu rosto muito particular, próprio”, disse o artista em uma entrevista. Suas fotos buscam um ângulo original para cada um das que enfoca. Pode ser o sorriso dos meninos que brincam nos silos de Puerto Madero, o olhar calmo do barbeiro tradicional do bairro de Santelmo, a calma com que espera seus clientes um fotógrafo do Jardim Botânico ou a elegância da bailarina de tango em uma série famosa de fotos suas sobre o gênero.

Em conversa com o jornal “La Nación”, Sessa chamou a atenção para a moda de fotografar o decadente. Protestou contra os que fazem isso sem sensibilidade. “O olhar agora está no decadente. É como se todo o mundo tivesse descoberto a beleza no abandonado e no destruído.” Não sem uma ponta de amargura, o veterano recorda que já ia ao bairro da Boca encontrar superfícies oxidadas há 30 anos.

Na mostra, também estão algumas das máquinas que usa, a mais frequente é uma Leica M5 carregada com a película Tri-x de Kodak (“para mim é como um violino”).

Mais do que uma sessão de nostalgia, a mostra de Sessa mostra uma Buenos Aires viável, que vivia em melhor harmonia com seu crescimento. Talvez fosse uma boa ideia convidar os atuais administradores da capital a visitá-la e tirar daí inspiração, além de lembrá-los que é preciso manter e preservar o patrimônio de uma das mais lindas cidades da América Latina.

 

 

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