Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Cristina viaja

Por Folha

Cristina Kirchner passou 12 dias fora do país, numa turnê que começou com a visita a Hugo Chávez em Cuba e terminou ontem, no Vietnã. Se os benefícios para o comércio bilateral da Argentina com os países asiáticos não são muito relevantes de um modo geral, por outro lado a viagem da presidente para aquele lado do mundo serviu para mostrar o quanto o cenário midiático argentino –o kirchnerista e o anti-kirchnerista – está viciado em Cristina, e vice-versa.

Desde que partiu, só se falou dela. A imprensa opositora acompanhou cada passo da turnê, com enviados especiais e comentaristas para cada atividade.

As matérias críticas começaram a sair desde o primeiro dia: a verdadeira importância econômica dessa viagem, o absurdo do uso de aviões alugados da Inglaterra para evitar que o Tango 01 fosse embargado por credores, a instalação da presidente em caríssimos hotéis a convite dos governos e outras.

Foram muitas as acusações de irregularidades ou de comportamento pouco ético da presidente, ilustradas pelas fotos de Cristina passeando por corredores de suntuosos palácios, e até experimentando uma dourada cereja que ganhou de presente de um de seus anfitriões, nos Emirados Árabes Unidos.

Cristina, por sua vez, respondeu de maneira descompensada. Agora usando o Twitter de maneira compulsiva, a presidente postou mais de 30 comentários quando esteve viajando. Neles, atacou todos os seus inimigos: o grupo Clarín, as grandes corporações, a Justiça, o opositor Mauricio Macri, os ruralistas e outros. A reação mais descontrolada foi contra o ator Ricardo Darín.

O protagonista de “O Segredo de Seus Olhos” havia dado uma entrevista à revista “Brando” questionando o enriquecimento do casal Kirchner e fazendo observações duras com relação ao modo como o kirchnerismo dividiu a sociedade argentina.

Cristina reagiu imediatamente. Por meio do Facebook e do Twitter, divulgou uma carta em que se dizia admiradora de Darín e cinéfila, mas acusando-o de se meter em assuntos que não lhe cabiam, além de apontar que ele havia tido problemas com a Justiça em 1991, quando comprou uma moto de maneira ilícita.

A briga de Darín com Cristina ganhou as manchetes dos jornais e foi assunto de vários noticiários, predominando sobre questões internas e internacionais.

Enquanto isso, a viagem seguiu rendendo. Como qualquer usuário comum do Twitter, Cristina postou várias impressões sobres os países que visitou. No último fim-de-semana, veio o melhor. Fotos de sua visita aos túneis usados pelos vietcongs para resistir contra as forças norte-americanas e francesas. Cristina evocou San Martín e Belgrano para elogiar a resistência vietnamita e posou sorridente “escondendo-se” nas trincheiras.

As fotos foram destaque em todas as partes. Nesse meio tempo, não se falou da oscilação do preço da soja, da maquiagem da inflação feita pelo Indec _que divulgou que a mesma é de 10%, e não de 25% como afirmam as consultorias privadas. Tampouco se falou do dólar a quase 8 pesos, nem da queda abissal do número de turistas na Argentina, que andam preferindo o barato e ensolarado Uruguai.

Os problemas reais da Argentina passam ao largo dos noticiários, sejam ele kirchneristas ou anti-governo.

A figura de Cristina, na Argentina dos dias de hoje, é tão onipresente, que ofusca os temas de real impacto na vida dos cidadãos. Mais vale esperar seu próximo twitt ou a próxima foto de suas aventuras, do que discutir soluções para os problemas verdadeiros do país.

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