Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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O Salieri de Borges

Por Sylvia Colombo

O mundo literário portenho está convulso devido às declarações que a polêmica viúva de Jorge Luis Borges (1899-1986), Maria Kodama, deu ao jornal “La Nación” no último dia 10. Kodama disparou vários ataques ao amigo de seu marido, o também escritor Adolfo Bioy Casares (1914-1989). “Covarde” e “detrito humano” foram apenas algumas das acusações que fez, revoltada com a publicação de “Borges”, livro em que Bioy Casares conta intimidades de sua relação com o autor de “O Aleph” e faz comentários sobre sua vida com Kodama.

“Bioy é o Salieri de Borges”, cravou, fazendo referência ao compositor contemporâneo de Mozart e invejoso do talento deste. “Esse homem (Bioy) escreve um livro em que inventa, distorce o que você diz ou coloca na sua boca o que ele não tem coragem de dizer. E só publica depois que você morre e ele também morre. Isso não é um homem. Isso é um detrito humano para mim.”

As agressões revoltaram profundamente os amigos e fãs do autor de “História da Guerra do Cerdo” e  “A Invenção de Morel”. Vários intelectuais se manifestaram através de declarações e artigos. Um deles foi Roberto Alifano, diretor da revista “Proa”, fundada por Borges. “Acreditamos que a miopia que a senhorita K declara padecer é na verdade mental. Talvez o que ocorra é que Bioy Casares tenha sido testemunha do destrato que tantas vezes ela teve em relação a Borges, e isso ela não se perdoa.”

Hoje, a partir das 18h, ocorre um ato de desagravo na casa Leopoldo Lugones, em Buenos Aires, no qual alguns intelectuais, como María Esther Vázquez, Alejandro Vaccaro e o próprio Alifano irão homenagear Bioy. Kodama não voltou a comentar suas declarações. O episódio veio somar-se a tantos outros em que se mostra possessiva e intransigente com relação à obra do marido, como no caso em que barrou traduções e impediu adaptações. Se Bioy foi o Salieri de Borges, para muitos Kodama é a Yoko Ono, a mulher que afastou o gênio de seu projeto e o fez deixar a arte num segundo plano.

 

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