Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Hebe, a rancorosa

Por Folha

Este texto saiu publicado no jornal “Tiempo Argentino”, apoiador do governo Cristina Kirchner, e foi assinado por Hebe de Bonafini, a líder das Mães da Praça de Maio. Reproduzo:

“Como não têm ideias próprias usaram, numa quinta-feira, o lenço das Mães. Nós repudiamos esta maneira e nos dão nojo os que marcharam. Aqueles que disseram de tudo à nossa presidente pediam liberdade, os que estavam felizes quando entraram em nossas casas para sequestrar e torturar até a morte nossos queridos filhos, dizem agora que têm medo de que os sequestrem. A classe que foi à Praça é herdeira do plano econômico de Cavallo e de Martínez de Hoz. Nos dão repugnância. Com eles não queremos nada: nem pactos nem diálogos. São a classe que nos humilha dizendo que somos ‘negros de merda'; os exploradores de sempre, os que não querem que os meninos pobres sejam felizes com os planos de Cristina: odeiam a igualdade. São os donos dos campos, dos bancos, das grandes empresas. São os candidatos de Magnetto e do ‘La Nación’. Em suas casas brota o ódio de classe. Por tudo isso, as Mães dizem que eles não devem sujar com suas mãos porcas o lenço, que é amor, abraços a nossos filhos que vocês assassinaram. Quinta-feira é nosso dia há 35 anos, quando pedimos Justiça, e que, graças à nossa querida presidente, podemos ver agora atrás das grades aqueles a quem vocês defendem. Se querem o governo, que vão às eleições para ver quem os vota. Sempre chegam ao poder por meio de ditaduras cívico-militares. Cristina foi votada por 54% da população. Agora não existe mais o Exército de Videla. Agora temos homens e mulheres das Forças Armadas, que só respondem à sua chefe, Cristina Fernández.”

As Mães da Praça de Maio são uma muito respeitável organização de direitos humanos. Nos anos de chumbo da ditadura argentina (1976-1983), saíram às ruas para reclamar seus filhos, vítimas da repressão. Foram ameaçadas, perseguidas, algumas também sequestradas e mortas, mas ajudaram a localizar o paradeiro de muitos deles, além de dar à causa uma necessária repercussão internacional.

Hebe de Bonafini, que sentiu na pele a imensa dor de perder dois filhos e uma nora durante a repressão, lidera a organização desde então. Apesar de sua ocupação nobre e dolorida, porém, não é de hoje que causa revolta por seus comentários violentos.

Entre outras coisas, ela já deu declarações favoráveis à Al Qaeda, dizendo que os EUA mereciam o 11 de Setembro, e também atacou judeus e imigrantes. Quando foi questionada por dar trabalho ao parricida Sergio Schoklender, acusado de desviar dinheiro das Mães, ela respondeu que adoraria que os filhos do ditador Jorge Videla tivessem matado o pai.

Pois na última semana, Bonafini deu mais um exemplo de sua intolerância ao escrever esse texto raivoso, atacando as pessoas que têm promovido panelaços contra o governo de Cristina Kirchner. As manifestações, que se acirraram nos últimos meses, têm como alvo a corrupção, a política econômica que tem levado o país à recessão e a insegurança. São protestos da classe média, em muito motivados pelas restrições à compra de dólares.

Bonafini, porém, vê tudo com o olhar de quem ainda está numa guerra. A insatisfação dos mais de 40% de eleitores que não votaram em Cristina é vista como um apoio à ditadura, como uma defesa ao terrorismo de Estado. Puro delírio.

Seu discurso, extremista, ajuda a insuflar os ânimos dos apoiadores de Cristina. Colabora para aumentar o abismo que há entre uma facção e outra da sociedade. É irresponsável e pode estimular atos violentos. Já era tempo de Bonafini ser melhor aconselhada ou alertada para o poder devastador e negativo que têm suas palavras.

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