Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Na Argentina, outra vez, a tortura

Por Sylvia Colombo

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“Te juro, te juro, por Deus, não vi”, implora o garoto de 18 anos, seminu, molhado, com a cabeça metida num saco plástico que o impede de respirar. Ao fundo, vê-se outro rapaz sendo submetido. As imagens provocam uma angústia dolorida.

A Argentina que está julgando de forma ampla e rígida os crimes de Estado dos anos 70 não está conseguindo fazer com que os direitos humanos dos que vivem nos dias de hoje sejam assegurados. As terríveis imagens acima foram gravadas numa delegacia da cidade de General Güemes, na província de Salta. O menino é Mario Rodriguez, que, segundo seus parentes, foi vítima dos policiais locais mais de uma vez.

O vídeo difundiu-se amplamente pelas redes sociais e causou revolta. Os policiais responsáveis, além do que filmou o ocorrido, foram presos após grande pressão de grupos de direitos humanos, como o Centro de Estudos Legales y Sociales (CELS) e as Avós da Praça de Maio.

Apesar da punição aos policiais criminosos, e das desculpas públicas formuladas pelas autoridades provinciais, o vídeo apenas evidenciou uma situação que todos sabem que é comum e ampla. A polícia das províncias comete abusos e atenta contra os direitos humanos diariamente. Só no ano passado, foram cerca de 200 mortes por conta de suas ações.

Ao jornal “El País”, María del Carmen Verdú, da Coordinadora contra la Represión Policial e Institucional, disse: “As torturas não são fatos que se podem atribuir a um louco solto ou à pouca preparação da polícia em matéria de direitos humanos. E não são produto da herança recebida pela ditadura (1976-1983). O choque elétrico foi introduzido em uma delegacia argentina na década de 30. Durante o regime militar, o governo teve de recorrer ao terrorismo de Estado. E então, esses delitos se tornaram invisíveis. Diante de 30 mil desaparecidos, quem ia se preocupar porque torturavam um preso comum?”.

Quase trinta anos se passaram da redemocratização do país. O terrorismo de Estado já não existe mais. O do dia a dia, nas cadeias e delegacias de todo o país segue existindo. Um governo que se diz tão preocupado com os direitos humanos não deveria fechar os olhos para isso.

 

 

 

 

 

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