Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Escrito nas estrelas

Por Sylvia Colombo

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Um grande filme será exibido em São Paulo a partir desta semana, dentro da mostra “Memória e Transformação”, na Cinemateca Brasileira. Trata-se de “Nostalgia da Luz” (2010), de Patricio Guzmán, destaque da programação composta de documentários políticos latino-americanos. O diretor chileno estará presente para um curso durante o evento.

Sempre preocupado com a questão da memória, eixo de seus principais filmes, como “A Batalha do Chile” (1973), “O Caso Pinochet” (2002) e “Allende” (2004), Guzmán volta ao tema nessa obra que foi selecionada para Cannes. Desta vez, porém, a ditadura chilena (1973-1990) é investigada a partir de outra abordagem. O diretor faz um paralelo entre a busca dos astrônomos em suas pesquisas sobre a origem do universo e a de historiadores, arqueólogos e familiares de desaparecidos que seguem em busca dos restos daqueles que foram mortos pela repressão.

O deserto cumpre um papel importantíssimo. Nos observatórios localizados no Atacama, Guzmán conversa com cientistas. Eles explicam que seu tema é também o passado, uma vez que a luz viaja e o que se vê é sempre um retrato de algo que já foi, seja observando galáxias distantes ou num simples encontro entre duas pessoas.

Também entre as montanhas de areia, visita lugares em que povos pré-colombianos deixaram suas marcas e ruínas de campos de concentração de prisioneiros do regime militar. Encontra as “mulheres do deserto”, que até hoje buscam entre as areias os restos de irmãos, maridos, amigos.

A repressão enterrava seus opositores ali, e há evidências de corpos que foram desenterrados e enterrados novamente, ou transportados para, talvez, serem atirados no mar.

São tocantes os relatos de um ex-preso político, que conta como memorizou uma dessas prisões do deserto através do número de passos que conseguia dar entre as celas e o pátio, e depois a desenhou, já no exílio, para denunciar os militares.

Ou o da mulher que conta como foi encontrando, aos poucos, no deserto, os restos de seu irmão. Primeiro o pé, depois partes do nariz e da testa, onde havia a evidência de um tiro de misericórdia.

“A memória tem força de gravidade, sempre nos atrai”, diz Guzmán, ao final do filme, quando leva essas mulheres a um observatório, para que olhem as estrelas e tentem estabelecer um vínculo entre esses dois passados.

A mostra da Cinemateca (www.cinemateca.gov.br) vai até 8 de julho e reunirá também outros filmes de Guzmán, além de produções de Colômbia, Peru, Argentina, México, Cuba e Paraguai.

 

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