Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Agressão a jornalistas

Por Sylvia Colombo

O clima de polarização social que vem crescendo na Argentina nas últimas semanas já está fazendo suas primeiras vítimas: os jornalistas. Na última sexta-feira, durante o panelaço que ocorreu em vários bairros da cidade, uma equipe de profissionais do programa “6,7,8” foi agredida por manifestantes.

O “6,7,8” vai ao ar pela TV Pública e dedica-se a discutir a cobertura dos fatos políticos feita pelos principais jornais. O tom é abertamente governista e os debatedores defendem as decisões, os funcionários e os representantes de meios de comunicação bancados de forma direta ou indireta pela gestão Cristina. O “Clarín” é seu principal alvo. O jornal, que está em guerra com o kirchnerismo desde o conflito do campo, em 2009, tem suas reportagens investigadas, interpretadas, expostas, assim como as decisões editoriais de dar destaque a determinados assuntos e o modo como elabora seus títulos. Ou seja, trata-se de um produto intencionalmente parcial e editorializado.

Ontem, foi a vez de um grupo de jornalistas de meios governistas sofrer uma agressão enquanto cobria um protesto num hospital em que uma garotinha morreu vítima de um erro médico. Os jornalistas eram da agência oficial de notícias, Télam, e dos jornais “Tiempo Argentino” e “Crónica”.

Como se sabe, a imprensa é parte importante do jogo político na Argentina. Com um ávido público consumidor de notícias e uma cultura local que faz com que o poder e tudo o que o circunda seja acompanhado como se fosse uma novela, os meios têm papel crucial no debate. Os veículos que sofreram agressão nos últimos dias têm seu orçamento dependente, em alguns casos, quase que exclusivamente, do governo. A linha editorial que adotam, por consequência, é de total apoio. Isso gera animosidades entre os 46% que não votaram no kirchnerismo.

Os casos estão tendo uma cobertura ampla. Os meios anti-governo repudiam a violência com veemência, para demonstrar que não aprovam essas barbaridades. Já os meios governistas aproveitam as agressões politicamente, vitimizando-se e expondo, através delas, os defeitos que vêem na oposição.

Qualquer ato de violência é injustificável e profundamente lamentável. Se o ambiente de polarização se agravar, há um risco de que esse tipo de episódio passe a ser mais frequente. É tudo que a Argentina não precisava agora.

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