Sylvia Colombo

Latinidades

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Um jornalista na cama de Evita

Por Sylvia Colombo

O mais importante jornalista argentino hoje chama-se Jorge Lanata. Tem 51 anos e cara de comediante. Não só cara. Há anos já demonstra sua habilidade na TV e no rádio. Os brasileiros, ao vê-lo, certamente se lembrarão de Jô Soares. Mas há, obviamente, diferenças nas trajetórias.

Lanata fundou um dos mais criativos e ousados jornais argentinos, o “Página12″, hoje convertido em veículo de propaganda governamental. Passou por vários jornais e emissoras. É dono de um estilo mordaz, rápido e aguçado. Tem sempre muita informação sobre os assuntos de que trata, e é muito, mas muito provocador.

Em seu novo programa televisivo, “Periodismo para Todos” (jornalismo para todos), Lanata tem se divertido com a animada política argentina, que tem vivido semanas fervilhantes. O escândalo de corrupção envolvendo o vice-presidente (um furo dele), o caso Schoklender, com as Mães da Praça de Maio, e, como não poderia deixar de ser, a expropriação da petroleira YPF.

Na edição que foi ao ar no último domingo, Lanata visitou os hotéis da família Kirchner na Patagônia, e o resultado, além de jornalisticamente relevante, foi divertidíssimo.

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O jornalista foi até Calafate, que Cristina Kirchner chama de “seu lugar no mundo”. De fato, confere o jornalista, “tudo o que está aí é dela”. As provocações começam ainda no ar. No avião da estatal Aerolíneas Argentinas, nota que os jornais que há para ler são governistas, como “El Argentino” e o próprio “Página12″, além da revista da companhia, que se chama “Cielos Argentinos”.

O avião pousa no aeroporto local, administrado pela mesma empresa acusada de ter relações ilícitas com o vice-presidente, Amado Boudou. A cidade é pequena, de apenas 17 mil habitantes, mas possui mais de 9 mil vagas em hotéis, a maioria deles de alto padrão. A região concentra ainda muitas fortunas acumuladas nos últimos dez anos.

Cristina e Néstor já foram acusados judicialmente de terem enriquecido de forma ilícita enquanto ele era governador da província de Santa Cruz. No Calafate, Lanata revela todo o mecanismo, que se deu através de especulação imobiliária.

O primeiro hotel dos Kirchner que visita é o Los Sauces. Como não sabem quem ele é, acaba sendo muito bem recebido e o anfitrião faz uma apresentação caprichada dos luxos do estabelecimento. Dos spas aos restaurantes, piscina e jardins, até a suíte Eva Perón, onde Lanata se hospeda.

Já de pijamão e chinelos, ele informa o valor da diária nesse quarto: US$ 650. E acrescenta que os lençóis vieram de Londres, por meio do avião presidencial, o Tango. A trilha sonora de fundo é a clássica “Don’t Cry For Me Argentina” e a marcha peronista, com levada de jazz.

No segundo hotel, o Alto Calafate, é barrado, mesmo tendo feito reserva. Os administradores já haviam sido informados de sua presença na cidade e o bloqueiam, “obedecendo ordens superiores”.

Em tempos em que o jornalismo argentino se caracteriza por ter muita opinião e pouca reportagem investigativa, “Periodismo para Todos” faz um ótimo serviço, oferecendo jornalismo real, com muito bom humor.

 

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