Sylvia Colombo

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Sylvia Colombo acompanha o crescente intercâmbio cultural entre o Brasil e o resto da América Latina. No blog, traz novidades e tenta explicar o contexto político da região.

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Isabelita e seu novo bruxo

Por Sylvia Colombo

Seu regime inaugurou a repressão dos anos 70 e deu lugar ao terrível golpe militar de 1976, com a sangrenta ditadura que se seguiu. Hoje, os dias de Isabelita Perón no exílio seguem envoltos no mesmo mistério que foi sua vida pessoal e pública, ao lado do general Juan Domingo Perón (1895-1974).

Isabelita, que muitos imaginam já morta, vive no exílio, na Espanha, na cidade de Mocha Chica, perto de Madri. Tem 81 anos, não recebe a imprensa, alegando estar cansada de ter de falar sempre sobre Perón, e não quer dar declarações sobre a violência desencadeada na Argentina naquela década.

No último fim de semana, o jornal argentino “Perfil” publicou uma entrevista com Octavio Aceves, o “bruxo de Isabelita”, um parapsicólogo que dá assistência espiritual à ex-presidente.

A notícia é curiosa porque evoca um personagem pra lá de sombrio. Nos tempos de Perón, Isabelita e o general aconselhavam-se com José Lopez Rega (1916-1989), conhecido como “El Brujo”. Durante o exílio do casal em Madri, Lopez Rega realizava cerimônias para tentar fazer com que a alma de Evita transferisse forças para Isabelita _o cadáver da ex-primeira dama ficava na mesma casa desde que foi devolvido após seu sequestro.

Quando Perón voltou para a Argentina e virou novamente presidente, em 1973, López Rega acompanhou o casal, e passou a ter grande influência na política, ocupando o cargo de ministro do Bem-Estar Social. Na sequência, foi um dos fundadores da temida “Triple A” (Aliança Anticomunista Argentina), que desatou uma violenta repressão a militantes e guerrilheiros de esquerda.

Os tempos são outros. Isabelita e López Rega são figuras do passado. Mas ouvir o novo “bruxo” da ex-presidente revela um pouco sobre esses personagens curiosos e obscuros da história argentina.

Aceves conta que Isabelita vive só, mas que tem amigos e participa de campanhas beneficientes. Ex-bailarina, se exercita todos os dias e ainda usa sapatilhas de dança. No verão, toma sol e usa roupas de banho. “Se cuida muito e está muito bem”, diz.

Conta que a encontrou “desmoralizada, aterrorizada e assustada”, mas que hoje leva uma vida normal e parece não querer lembrar do período negro de repressão desatado por seu governo.

Aceves, que tem 38 livros sobre parapsicologia e um programa de TV, está preparando uma biografia oficial de Isabelita. É difícil que traga novos elementos sobre esse período tão traumático da história argentina. Mas poderá reunir revelações importantes sobre essa personagem tão próxima a Perón que a maioria dos argentinos parece preferir esquecer que ainda existe.

 

 

 

 

 

 

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